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A INSENSATEZ QUE FLUTUA NOS MARES DE BÚZIOS – por Ricardo Amaral

Sem o menor pudor ou senso de responsabilidade, autoridades do Estado do Rio de Janeiro e da cidade de Búzios acusaram navios de Cruzeiros Marítimos de causarem danos ambientais em uma de suas praias. Por sua conta e risco, fotografaram uma mancha amarelada no mar próxima de um transatlântico, convocaram a imprensa, julgaram e condenaram sem apelação, apontando a culpa para os navios.

Note-se que não havia laudo, as águas supostamente contaminadas ainda seriam analisadas. Ou seja, sem nenhuma prova, sem direito a defesa, os navios foram condenados por uma espécie de tribunal de exceção.

Cinco dias depois do surgimento da mancha no mar, o Inea (Instituto Estadual do Ambiente), do Rio, divulgou apenas parte de um laudo inconcluso para dizer: “A mudança de coloração da água do mar no entorno de um dos transatlânticos fundeados na Praia da Armação, em Búzios, na Região dos Lagos, no último sábado (22/02), não contêm elementos que caracterizem despejo de esgoto ou floração de microalgas”.

Na ocasião, o secretário estadual do Meio Ambiente do Rio, Índio da Costa, foi categórico e, certamente, precipitado em suas declarações para a imprensa e na divulgação de fotos: “Estamos quase certos de que o problema foi ocasionado pelo lançamento de esgoto não tratado ou tratado de forma irregular por um dos navios que atracou em Búzios”.

O episódio teve grande repercussão nacional, de um lado, o secretário estadual e autoridades municipais de Búzios apontando o dedo indicador para os transatlânticos.

De outro, a CLIA Abremar – Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos demonstrando que seria remota a possibilidade de um dano ambiental causado pelos navios das suas operadoras associadas, devido aos elevados e constantemente atualizados mecanismos adotados para preservar o meio ambiente. Mas como acusação sempre carrega um peso maior do que a defesa, a imagem deste setor mais uma vez foi prejudicada pela demagogia.

Um mínimo de bom senso afastaria de imediato qualquer suspeita. Um navio desse porte leva em média cinco anos para ser construído nos mais importantes estaleiros da Europa, continente que possui máximo rigor no trato com o meio ambiente. A construção de um navio, portanto, leva em conta em primeiro lugar o excesso de zelo com a segurança e o meio ambiente, com toda a tecnologia à disposição. O esmero não se limita ao luxo dos Cruzeiros, mas a cada detalhe, desde sua concepção arquitetônica.

As embarcações navegam pelos mais importantes pontos turísticos do mundo e são submetidas às mais rigorosas leis de proteção ambiental – e não se tem notícia de qualquer dano ao meio ambiente, salvo em caso de acidentes, passíveis em qualquer atividade humana.

A indústria dos Cruzeiros Marítimos brasileiros opera hoje com 732 mil passageiros/ano e ocupa a sétima posição num mercado mundial de 20 milhões de passageiros. Nos navios que operam na costa brasileira em cabotagem suas tripulações são compostas de mais de 25% de brasileiros. Trata-se de um número expressivo: só nesta temporada foram contratados mais de 2.500 tripulantes no País. Somados aos empregos gerados em escritórios, agências de viagem, receptivos e nas cidades em que os navios fazem escala, este número é quadruplicado.

Búzios, desde o início do ciclo dos cruzeiros marítimos no Brasil, é um dos principais portos turísticos nacionais e, em algumas temporadas, com mais escalas do que o Rio de Janeiro. Os benefícios para a cidade são imensos, com uma média de 300 mil turistas novos, todos os anos, que passam a conhecê-la. O comércio de Búzios fatura milhões de reais com a passagem dos turistas dos Cruzeiros. O que resulta em arrecadação de tributos. Além disso, os Cruzeiros Marítimos abrem as cortinas do País para os turistas estrangeiros e ajudam a incrementar a nossa indústria turística. Neste ponto, pergunta-se pela responsabilidade daquelas autoridades.

Desde a divulgação do laudo, a CLIA/Abremar vem tentando acesso à íntegra do documento do Inea para provar a injustiça cometida contra o nosso setor. Mas a burocracia parece adestrada a dificultar esse acesso. Afinal, não convém tornar público o verdadeiro retrato de autoridades mais comprometidas com a notícia do que com a realidade.

Construir a reputação demanda anos de esforço; destruí-la, ainda que com mentiras, leviandades e provas que não se prestam a provar nada, é muito rápido. A administração pública, neste e em outros casos, volta-se mais para seus interesses cartoriais do que para a verdade, fato que ajuda a enriquecer o acervo de mazelas.

Os gestores públicos têm o dever de dar explicações à sociedade sobre o que de fato ocorreu em Búzios, em nome da transparência, da ética e do respeito.

Neste momento, interesses conflitantes parecem buscar evitar que os cruzeiros operem em Búzios, protegendo uma elite privilegiada. Porém, as autoridades públicas deveriam preservar o direito do desenvolvimento do turismo sustentável e da inviolabilidade da imagem desse setor,  garantia constitucional cuja lesão configura dano moral indenizável.

 

(*) Ricardo Amaral é presidente da CLIA Abremar – Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos

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